Excesso de exercícios altera a regulação química do cérebro, aponta estudo

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Treinos exaustivos sem recuperação suficiente podem alterar a regulação da dopamina no cérebro, aponta estudo com camundongos. (Foto: Instagram)

O excesso de atividade física pode afetar não apenas os músculos, mas também a química cerebral. Pesquisa publicada na revista Neuroscience indica que treinos exaustivos, sem recuperação suficiente, alteram a regulação da dopamina no hipocampo, área relacionada à memória e às emoções. Em camundongos submetidos a exercícios intensos, os níveis do neurotransmissor permaneceram elevados durante o período em que os animais deveriam estar descansando.

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A descoberta pode ajudar a investigar possíveis relações entre treinamento excessivo e sintomas como ansiedade, insônia e fadiga crônica em atletas, caso o mecanismo também ocorra em humanos. Alisson Luiz da Rocha, primeiro autor do estudo, afirma que os resultados mostram que o excesso de exercício tem impacto pronunciado no cérebro, além dos efeitos sobre o músculo esquelético. A pesquisa foi realizada durante seu doutorado na EEFERP-USP (Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo), com bolsa da Fapesp.

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Para simular o excesso de treinamento, os pesquisadores dividiram os camundongos em dois grupos principais. Um foi submetido a um esforço agudo: os animais correram em uma esteira até a exaustão. O outro passou por uma rotina inspirada na de atletas de alto rendimento com síndrome de overtraining, condição associada à perda de desempenho e apetite, fadiga crônica, dores musculares, mais lesões e alterações no sistema imune e no metabolismo. Nesse grupo, os roedores treinaram durante 8 semanas, com cargas crescentes. Na última semana, fizeram duas sessões diárias, separadas por apenas 4 horas de recuperação.

Depois dos exercícios, a equipe examinou o hipocampo e mediu dopamina, serotonina e proteínas ligadas à produção desses neurotransmissores, entre elas a tirosina hidroxilase (TyrH) e o transportador vesicular de monoaminas 2 (VMAT2). No grupo submetido ao esforço agudo, a dopamina aumentou logo após a corrida. Já nos animais que passaram pelo treinamento crônico, os níveis de dopamina e da enzima TyrH continuavam elevados 48 horas depois do teste de desempenho, durante o período de repouso.

O coordenador do estudo, Adelino Sanchez Ramos da Silva, professor da EEFERP-USP, ressalta que alterações semelhantes em humanos poderiam ajudar a compreender a relação entre treinamento excessivo, regulação cerebral e distúrbios do sono. A pesquisa, porém, não avaliou sono, estado de alerta ou ansiedade. A conexão entre os resultados observados nos camundongos e esses sintomas em pessoas ainda precisará ser investigada em trabalhos futuros.

Os autores destacam que a dopamina é essencial para a sensação de prazer e para manter as pessoas despertas nos momentos adequados; não se trata de uma substância prejudicial por si só. A preocupação é um possível desequilíbrio quando seus níveis aumentam na hora de dormir, além de uma proporção desigual em relação a outros neurotransmissores. A equipe não encontrou diferenças significativas na serotonina, resultado que contraria a hipótese de que essa substância, isoladamente, seria a principal responsável pela fadiga excessiva.

A investigação também envolveu o pós-doutorado de Rocha na Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas, em Limeira, e um estágio na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, onde ele atualmente pesquisa. O grupo recebeu recursos de um Projeto Temático coordenado por Silva e bolsas para Ana Paula Pinto e João Pedro Floriano, ambos da EEFERP-USP. Agora, os pesquisadores desenvolvem uma colaboração internacional para identificar quais sistemas biológicos apresentam primeiro sinais de afastamento das adaptações benéficas esperadas do exercício. Os resultados reforçam a importância da recuperação: sem descanso adequado e orientação especializada, atletas profissionais e amadores podem ter perdas de desempenho e outros efeitos associados ao excesso de treino.