
Alertas da Defesa Civil salvam vidas quando são claros, relevantes e ajudam as pessoas a agir. (Foto: Instagram)
Uma reportagem do jornal mineiro O Tempo ensinou leitores a desativar alertas da Defesa Civil no celular. O episódio suscita uma questão: por que alguém deixaria de receber uma mensagem criada para proteger sua vida? Uma possível explicação é a fadiga de alertas, que ocorre quando avisos repetidos, pouco relevantes ou mal calibrados deixam de chamar a atenção. O desafio não é apenas fazer a mensagem chegar, mas preservar a confiança no sistema.
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O Defesa Civil Alerta usa redes de telefonia para enviar mensagens a aparelhos compatíveis conectados ao 4G ou 5G em áreas de risco, sem exigir cadastro prévio. Mas receber um aviso não significa agir. Um estudo publicado em 2025, com gestores de emergência e integrantes do público, associou a fadiga à frequência, à relevância e ao conteúdo das mensagens. Entre as consequências estão dessensibilização, reclamações e, quando possível, a opção de ignorar ou deixar de receber alertas.
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O sistema tem dois níveis principais: o alerta severo, que indica a necessidade de medidas de proteção, e o extremo, destinado a situações de risco grave e imediato à vida ou à propriedade. Nesse último caso, o celular emite um som semelhante a uma sirene mesmo no modo silencioso; o recurso vem ativado e não pode ser desabilitado. Ainda assim, ninguém pode ser obrigado a confiar no aviso. Se mensagens forem percebidas como frequentes demais, imprecisas ou pouco úteis, as pessoas podem passar a ignorá-las.
Até março de 2026, haviam sido emitidos 2.103 alertas desde a criação da ferramenta, em dezembro de 2024. A expansão deve vir acompanhada da avaliação sobre quem recebeu as mensagens, se as compreendeu e se conseguiu seguir as orientações. Não basta reduzir o número de avisos: é preciso relacionar ameaça, território, momento e instrução. Quanto maior a gravidade, mais claro deve ser o que a pessoa precisa fazer, como evitar uma avenida sujeita a inundação ou buscar um local seguro.
A iniciativa internacional Early Warnings for All considera quatro componentes essenciais: conhecimento do risco; detecção, monitoramento e previsão; comunicação dos alertas; e preparação para responder. No Brasil, os órgãos que usam a ferramenta devem ter capacitação e planos de contingência com riscos locais, rotas de fuga, abrigos, procedimentos e treinamento da população. Uma mensagem não substitui a preparação: evacuações e abrigos só são úteis quando as pessoas conhecem as rotas e os locais indicados.
O país já tem um painel que acompanha quantidade, gravidade, tipo de desastre, período e local dos avisos. Também seria importante medir a compreensão, a relevância percebida, a confiança no emissor e a adoção das recomendações. Pesquisas após eventos, exercícios simulados e análises posteriores poderiam revelar mensagens confusas, orientações difíceis de executar e sinais de fadiga. A hipótese merece investigação, mas a ocorrência e a dimensão do fenômeno no Brasil ainda precisam ser apuradas.
Alertas salvam vidas quando chegam a tempo, são compreendidos e levam à ação. Em 2004, na Tailândia, Tilly Smith, uma menina britânica de 10 anos, ajudou a salvar mais de 100 pessoas em uma praia ao reconhecer sinais de tsunami aprendidos poucas semanas antes em uma aula de Geografia. Ela avisou a família, que contribuiu para retirar as pessoas. A tecnologia permite fazer milhões de celulares tocarem; o desafio é garantir que, ao ouvir o alerta, as pessoas prestem atenção, confiem na mensagem e saibam como agir.
