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Flávio faz ataque capacitista a Lula no debate da Globo e pede desculpas em público


Flávio Bolsonaro pediu desculpas a Lula após usar a expressão “nove dedos” durante debate na TV Globo. (Foto: Instagram)

Flávio Bolsonaro (PL) provocou indignação ao usar a expressão “nove dedos” para zombar da deficiência física do presidente Lula (PT), durante o debate da TV Globo na noite de sexta-feira (23). Lula perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho aos 17 anos. Após a provocação, cobrou respeito aos trabalhadores brasileiros e exigiu que Flávio se desculpasse. O senador pediu desculpas ao vivo. A fala recebeu críticas nas redes sociais, onde internautas a classificaram como capacitista. A hashtag #SomosTodos9Dedos, impulsionada pelo deputado André Janones, chegou ao quinto lugar entre os assuntos mais comentados do X, antigo Twitter. O médico do trabalho e professor Arruda Bastos também criticou as declarações de Flávio sobre a idade e a audição de Lula, que teve câncer na garganta, e alertou para a possibilidade de configurar crime de injúria qualificada contra pessoa com deficiência e pessoa idosa.

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A discussão sobre os “9 dedos” surgiu durante uma conversa sobre salário mínimo, impostos e a proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana. Flávio criticava a política econômica do governo Lula e dizia que os reajustes salariais não eram suficientes diante da carga tributária. “Você dá com uma mão e tira com os nove dedos”, afirmou o senador, adaptando com ironia a expressão popular “dar com uma mão e tirar com a outra”. A provocação fazia referência à amputação sofrida por Lula em 1964, quando trabalhava como torneiro mecânico em uma fábrica de São Paulo. No mesmo debate, Flávio também disse que Lula não entendia o que lhe era dito e que não escutava.

Quando respondeu, Lula interrompeu a discussão econômica e contestou a ofensa. Disse que Flávio havia falado uma “grande asneira” e que não levaria aquilo para casa, lembrando que o senador o chamara de “nove dedos”. Lula contou que sofreu o acidente aos 17 anos, enquanto trabalhava à noite em uma fábrica, e relacionou a amputação às condições enfrentadas por trabalhadores. No confronto político, também chamou Flávio de “miliciano” e exigiu que pedisse desculpas. “Você vai ter que pedir desculpa. Porque o povo trabalhador está vendo”, cobrou. Flávio recuou e declarou: “Lula, se eu te ofendi, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender. Peço desculpa de verdade”. Em seguida, mudou de assunto e disse que Lula deveria desculpas à população brasileira, citando o aumento da população em situação de rua.

A repercussão levou novamente ao debate o preconceito contra pessoas com deficiência e as consequências dos acidentes de trabalho. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), o país registrou 4,6 mil afastamentos por amputações em 2024, alta de 6% em relação ao ano anterior. Entre 2012 e 2024, foram contabilizados 8,8 milhões de acidentes de trabalho e 32 mil mortes entre trabalhadores com carteira assinada, de acordo com o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, desenvolvido pelo MPT e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Em 2023, os afastamentos por amputações ficaram em aproximadamente 4,4 mil. O levantamento aponta ainda que acidentes com máquinas e equipamentos podem causar lesões graves, incluindo amputações, e levar a cirurgias, reabilitação, mudanças na rotina profissional e dificuldades de retorno ao mercado de trabalho.

O episódio também foi associado à realidade das pessoas com deficiência no Brasil. Dados do Censo 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025 apontam 14,4 milhões de pessoas com deficiência no país, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. O levantamento considera dificuldades funcionais, como limitações para enxergar, ouvir, caminhar, pegar objetos e realizar atividades cotidianas. A declaração de Flávio foi classificada como capacitista por usuários que acompanharam o debate. Capacitismo é o preconceito ou a discriminação contra pessoas com deficiência e pode se manifestar em atitudes, palavras, piadas e apelidos que usam características físicas para ridicularizar alguém. André Janones e apoiadores de Lula impulsionaram a hashtag #SomosTodos9Dedos, que alcançou o quinto lugar entre os assuntos mais comentados do X.

As críticas nas redes sociais mostraram que a provocação ultrapassou a disputa entre Lula e Flávio e provocou indignação também entre pessoas que não são eleitoras do presidente. Não há levantamento que indique quantas pessoas com deficiência se sentiram ofendidas pela fala. Ainda assim, a repercussão trouxe à tona a necessidade de respeito às vítimas de acidentes e a quem perdeu parte do corpo trabalhando. Apesar do pedido de desculpas feito por Flávio, a discussão deixou em evidência que características físicas e sequelas de acidentes não devem ser usadas para humilhar ou desqualificar pessoas.

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