
Letreiro da Uber em veículo antes do encerramento das operações na Nigéria e Uganda (Foto: Instagram)
Depois de mais de dez anos operando na Nigéria, a Uber anunciou sua saída inesperada do país mais populoso da África e a descontinuação imediata em Uganda. Com isso, a empresa passa a atuar em apenas quatro nações do continente: Egito, Gana, Quênia e África do Sul.
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A companhia atribuiu a decisão à necessidade de “priorizar o apoio a motoristas, passageiros e equipes locais durante a transição”, sem detalhar os mecanismos desse suporte. A saída reforça uma série de recuos recentes, que já incluíram o fim das operações na Costa do Marfim e na Tanzânia, além de uma redução de 10% na força de trabalho global.
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Motoristas em diversos países africanos vinham reclamando das margens cada vez mais estreitas, em função do alto custo do combustível, da inflação e da volatilidade cambial. A comissão da Uber varia entre 20% e 25% de cada corrida, o que, segundo profissionais locais, tornou o negócio insustentável.
Abbas Olamide, motorista em Abuja, conta que, em uma viagem de 30.000 nairas (R$ 115) até o aeroporto, a plataforma fica com 6.000 nairas (R$ 23). “Ainda pago a taxa de acesso ao terminal, o estacionamento e, muitas vezes, volto vazio para a cidade. No fim do dia, não sobra quase nada”, relata. Em Lagos, Samuel Olatunji, de 43 anos, afirma que terá de migrar para outros aplicativos para manter alguma estabilidade de renda, embora reconheça que o faturamento cairá.
Nos últimos anos, profissionais como Olamide e Olatunji participaram de greves e protestos contra o aumento dos custos operacionais, as tarifas consideradas baixas e a alta do combustível. O quadro piorou em 2026, quando o preços dispararam devido aos desdobramentos do conflito entre EUA, Israel e Irã, e as reivindicações dos motoristas foram ignoradas, deixando muitos com perspectivas incertas.
Para o sócio da consultoria SBM Intelligence, Ikemesit Effiong, a combinação de custos crescentes — combustível, manutenção e seguros — com a derrocada da naira em relação ao dólar gerou um desequilíbrio estrutural. Enquanto os gastos da Uber são dolarizados, a receita dos condutores é limitada pela moeda nacional, cujo enfraquecimento reduziu o poder de compra dos passageiros.
O mercado nigeriano de transporte por aplicativo é estimado em cerca de 450 milhões de dólares anuais. Ainda assim, plataformas rivais como Bolt, inDrive e SafeBoda ganharam espaço. A inDrive, por exemplo, adota um modelo de negociação direta entre motorista e passageiro, minimizando a dependência de comissões padronizadas. Muitos profissionais agora operam simultaneamente em vários apps, fazem corridas fora das plataformas ou deixam a atividade.
Para usuários, a saída da Uber significa menos opções de um serviço considerado mais seguro e confiável. Mary-Esther Anele, que mora em Lagos, prevê redução de viagens devido ao aumento das tarifas. A decisão da empresa abre dúvidas sobre suas próximas movimentações na África: haverá novas interrupções em outros países? A política de preços sofrerá ajustes? E como os concorrentes reagirão?








