
As favelas brasileiras reúnem 17,2 milhões de pessoas em 6,6 milhões de domicílios, movimentando R$ 300 bilhões por ano — mais do que a economia de 22 estados e praticamente todo o PIB da Bolívia. Mesmo assim, a penetração de seguros nessas comunidades permanece baixa, por obstáculos que vão do custo ao acesso e à desconfiança em relação ao setor.
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A administradora Helen de Araújo, de 30 anos e moradora de Paraisópolis, em São Paulo, sentiu na pele esse cenário. Quando a sobrinha morreu, a família precisou arcar imediatamente com o funeral, reunindo dinheiro de cartões e em espécie. Três meses antes de conceder entrevista, em setembro, Helen contratou um seguro pessoal que inclui assistência funerária. Ela não espera utilizá-lo, mas prefere não ficar desamparada diante de imprevistos.
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Há um paradoxo: quem tem menos reservas sofre mais com choques graves e, portanto, precisaria de mais proteção. As favelas já convivem diariamente com riscos, mas o mercado ainda não conseguiu traduzi-los em oportunidades. Em 2025, os microsseguros arrecadaram apenas R$ 1,46 bilhão no país, cerca de 1% do segmento de danos — apesar de esse público representar quase 10% da população. O valor caiu 10,9% em relação a 2024, enquanto os seguros de danos subiram 7,3%.
Pesquisa do Instituto Locomotiva, encomendada pela Confederação Nacional das Seguradoras, revela que 62% dos moradores já passaram por situações que teriam sido amenizadas com seguro e que 57% enxergam no produto uma fonte de tranquilidade. Apenas 15% não têm interesse no tema. Para Renato Meirelles, presidente do instituto, o grande empecilho é a percepção de que o seguro não foi feito para a favela. “Eles sabem o que é uma Ferrari, mas não acham que seja para eles”, compara. Gilson Rodrigues, do G10 Favelas, reforça que a publicidade segmenta um “outro Brasil”, retratado por famílias brancas e casas com jardim.
O levantamento também mostra que 60% dos entrevistados já tiveram o celular roubado e 55% perderam equipamentos de trabalho. Doenças ou acidentes resultaram em perda de renda para 47% das famílias, enquanto 41% enfrentaram mortes sem ter recursos para o funeral. Jaqueline Amorim, nutricionista de 30 anos e mãe solo de dois filhos, soma várias fontes de renda — atendimento a pacientes, venda de joias, marmitas e trabalho no G10 Favelas. Sem cobertura do INSS ou FGTS, ela contratou um seguro de cerca de R$ 40 ao ano e, no mês passado, acionou a assistência após a morte de uma tia.
Para avançar, o setor precisa oferecer produtos com valores acessíveis e que reflitam a realidade local — carros com mais de dez anos, motos de entrega, equipamentos caseiros. Além do preço, há barreiras de confiança e de burocracia: 65% consideram o seguro caro demais, 64% temem não receber quando precisarem e 38% julgam a contratação difícil. “Não basta baixar preço, é preciso fazer sentido na vida de quem vai comprar”, diz Renato Meirelles.








