
Adolescente acessa plataforma de apostas pelo celular (Foto: Instagram)
O aumento de apostas on-line entre adolescentes tem levado um número crescente de jovens a buscar ajuda para lidar com a dependência, segundo o integrante Luiz Carlos, de 71 anos, membro do grupo de apoio Jogadores Anônimos. Ele ressalta que é cada vez mais comum receber participantes de apenas 14 anos, acompanhados até por psiquiatras, além de frequentadores de 15, 16 e até 35 anos em busca de tratamento para o vício.
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O caso do gaúcho Gustavo Pereira ilustra o impacto financeiro e psicológico do vício em apostas. Com 24 anos, ele começou a apostar aos 18 e, em seis anos, perdeu R$ 500 mil após conseguir transformar R$ 10.000 em R$ 300 mil e depois voltar a perder tudo. Há cerca de dois meses sem apostar, Gustavo hoje vende café nas ruas de Lages (SC) e compartilha no Instagram seu processo de superação, incluindo relatos sobre depressão e síndrome do pânico.
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Especialistas apontam que o fácil acesso a plataformas de jogo no celular amplia o risco entre menores. Dados do Unicef de 2021 indicam que uma em cada cinco pessoas inicia apostas on-line até os 11 anos, percentual que sobe para 78% a partir dos 12 anos. Pesquisa de 2024 no Brasil, divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação, revelou que 9,5% de 1.912 estudantes do ensino fundamental e médio fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Estudo do Ibict alerta ainda para canais destinados ao público infantil que promovem apostas ilegais. A psicóloga Mariana Kehl explica que o cérebro do adolescente já reage rapidamente à dopamina do ganho, mas só amadurece a parte de controle de impulsos na casa dos 20 anos.
Luiz Carlos relembra os anos 1980, quando jogava em máquinas de videopôquer e precisava sair de casa para apostar. “Hoje você carrega um cassino dentro do seu bolso”, compara, celebrando seus 15 anos de abstinência. Ele afirma que, se ainda jogasse, estaria “perdido”, e reforça a importância de buscar ajuda em comunidades como Jogadores Anônimos.
Além de Luiz Carlos e Gustavo, frequentadores como Rogério (53 anos), Rodrigo (47) e Carla Xavier (41) também relatam conquistas na recuperação: Carla e Rogério completaram mais de um ano sem apostar, enquanto Rodrigo ultrapassou seis meses de abstinência. Para muitos, o grupo foi a última esperança após perder bens, acumular dívidas e até considerar o suicídio.
Relatório do Ibict estimou que 24 milhões de brasileiros apostaram em 2024, quase metade endividada. Rogério lembra que, no início, as apostas pareciam inofensivas, mas logo passaram a comprometer seu orçamento e o pagamento de contas. Tiago Braga, diretor do instituto, alerta que “quanto mais se gasta em apostas, menos sobra para despesas básicas como aluguel, comida e educação”.
Pesquisa da Abmes mostra que 34% dos jovens afirmam precisar interromper gastos com apostas para ingressar no ensino superior em 2026. Entre os que já estudam, 14% atrasaram mensalidades ou trancaram o curso, 34% deixaram de investir em cursos ou idiomas e 33% abriram mão de atividades físicas. Para Paulo Chanan, diretor-geral da associação, escolas e universidades devem atuar em conjunto com saúde pública e políticas de regulação para oferecer prevenção, orientação e acolhimento.








