
Puberdade precoce: sinais que não esperam a idade (Foto: Instagram)
A puberdade precoce tem preocupado pediatras e endocrinologistas em diversas partes do globo, Brasil incluído. Trata-se do desenvolvimento de características sexuais secundárias antes dos oito anos nas meninas e dos nove nos meninos. Um exemplo marcante é o de Gabby, que iniciou menstruação e apareceu pelos no corpo aos seis anos. Sua família consultou múltiplos especialistas até confirmar puberdade precoce central (PPC), condição que, sem tratamento, pode trazer complicações ao longo da vida.
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Dados internacionais mostram que a incidência anual de PPC varia de 0,2 a 26 casos a cada 10 mil meninas e de 0,02 a 0,9 a cada 10 mil meninos, enquanto a puberdade precoce periférica (PPP) é menos comum. As meninas são significativamente mais afetadas, mas ainda não se sabe por que. Pesquisadores apontam fatores como obesidade infantil e alterações ambientais que podem ter acelerado esse quadro nas últimas décadas.
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Gabby, hoje com 26 anos, detalha as sessões de exames e as injeções de agonistas de GnRH a cada três semanas, usadas para atrasar o avanço hormonal. “Eu me sentia uma alienígena, tomava injeções e via meu corpo mudar antes da minha idade”, relatou. A terapia é normalmente suspensa entre 11 e 12 anos, quando a puberdade prossegue no ritmo esperado, mas os primeiros sinais já haviam causado impacto físico e emocional irreversível em sua infância.
A puberdade precoce divide-se em PPP, desencadeada por produção hormonal direta dos ovários ou testículos, e PPC, na qual o eixo hipotálamo-hipófise é ativado prematuramente. Um estudo dinamarquês (1998-2017) com 8.596 crianças calculou média anual de 9,2 meninas e 0,9 meninos diagnosticados com PPC a cada 10 mil. Na Coreia (2008-2014), o índice chegou a 26,28 meninas e 0,7 meninos. A endocrinologista Ana Pinheiro Machado Canton, da USP, ressalta ainda a influência de obesidade e possíveis lesões cerebrais como gatilhos.
Há indícios de predisposição genética. Em 2013, pesquisadores de Harvard identificaram mutações no gene MKRN3 ligadas à PPC. O caso de Lara, hoje com 10 anos, e de Beatriz, com oito, ilustra isso: ambas herdaram a alteração paterna e começaram tratamento precoce com hormônios após sinais de desenvolvimento. “Quando descobri que minha filha tinha menos de seis anos e já apresentava seios, senti pânico”, lembra a mãe, Léia Bernardi.
A ausência de intervenção médica pode elevar o risco de problemas cardiovasculares, câncer de mama e de endométrio na vida adulta, além de prejudicar o crescimento ósseo. Diagnósticos rápidos e bloqueadores hormonais, usados há mais de três décadas, ajudam a normalizar o desenvolvimento. Familiares e pacientes, como Gabby, dedicam-se agora a compartilhar informações e apoiar outros pais para que reconheçam cedo os sintomas e busquem ajuda especializada.
