
Usuários dispersos da Cracolândia formam filas improvisadas pelas ruas de São Paulo, dificultando acesso a tratamento. (Foto: Instagram)
Um ano após a dispersão da Cracolândia em São Paulo, profissionais de saúde e organizações não governamentais enfrentam resistência para localizar dependentes químicos e acompanhar seus tratamentos. A pulverização do chamado “fluxo” da Cracolândia complicou o trabalho de equipes que antes atendiam em pontos concentrados, obrigando-as a buscar usuários em diferentes regiões e, muitas vezes, sem sucesso. Essa barreira dificulta a manutenção de medicamentos, terapias e o apoio psicossocial indispensável para a recuperação desses indivíduos.
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O processo de dispersão teve início em maio de 2025, quando ações integradas do governo do estado, comandado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), e da Prefeitura de São Paulo tornaram invisível o uso de drogas em vias públicas. Seis meses depois, o governador comemorou no Twitter a “desarticulação” da Cracolândia como resultado de políticas integradas de segurança, saúde e assistência social. Contudo, o “Dossiê da Cracolândia” evidenciou abusos por parte das forças de segurança, internações em massa e abordagens higienistas.
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Para o psiquiatra Flavio Falcone, que atua na Cracolândia desde 2010, a ênfase em abstinência total beneficia apenas 10% dos pacientes e deixa o restante fragilizado. “Essa exigência se torna mais um estressor para quem já vive em situação de vulnerabilidade”, afirma. O pesquisador Marcel Segalla, mestre em Ciência da Saúde pela USP, também alerta para o risco de muitos usuários abandonarem o tratamento: “Depois da dispersão, é difícil saber se aqueles que conhecíamos há anos ainda estão vivos ou tratando doenças como tuberculose e HIV.”
A Guarda Civil Municipal de São Paulo afirma não ter recebido ordem para dispersar dependentes, mas destaca o trabalho de policiamento preventivo e ostensivo contra o tráfico e para a manutenção da ordem no espaço público. Segundo o órgão, em casos de crime, os envolvidos são encaminhados à autoridade policial, e a corporação ainda colabora com Subprefeituras e assistência social, além de apoiar, quando necessário, a Polícia Militar.
O problema de localização também impacta o cuidado médico de doenças associadas à dependência. Falcone lembra o caso de uma paciente com HIV, acompanhada desde 2013, que interrompeu o tratamento após mudar de local constantemente e contraiu tuberculose resistente, vindo a falecer. “Sem rastreio, equipes de saúde não conseguem fornecer os medicamentos necessários, colocando vidas em risco”, enfatiza.
A perda de documentos e bens pessoais, consequência de operações policiais, agrava o acesso a programas sociais. Lydia Gama, advogada e coordenadora do coletivo “Teto, Trampo e Tratamento”, ressalta que a falta de cadastro e CPF impede a obtenção de benefícios básicos. Em resposta, a Prefeitura de São Paulo reafirmou que o acolhimento e tratamento de pessoas em situação de rua e dependentes de substâncias é um programa contínuo, baseado em critérios técnicos. Segundo o governo municipal, foram ampliados Consultórios na Rua, serviços de acolhimento noturno e ferramentas de monitoramento como Smart Sampa e Muralha Paulista, além do Programa Operação Trabalho, e investidos R$ 243,5 milhões em proteção social entre 2023 e 2026.
