
Cenipa aponta falhas críticas em voo da Voepass que causou 62 mortes em Vinhedo (Foto: Instagram)
Nesta quinta-feira (23), o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) apresentou o relatório final sobre a queda do voo 2283 da Voepass, ocorrida em Vinhedo, interior de São Paulo, que resultou na morte de 62 pessoas. O documento ressalta que a aeronave não deveria ter sido liberada para decolagem nas condições em que operava.
++ Sistema de IA revela como pessoas comuns estão criando novas fontes de renda online
O estudo aponta que a tragédia foi provocada por uma série de falhas da companhia aérea, da equipe de voo e da fiscalização da Anac. Antes da partida, o ATR 72-500 já registrava dez problemas técnicos, entre eles um defeito no limpador de para-brisa — equipamento obrigatório em operações com previsão de chuva —, mas mesmo assim recebeu autorização para decolar.
++ Madeleine McCann, desaparecida em 2007, aparece mencionada nos arquivos do caso Epstein
Pouco depois da decolagem, o avião ficou de oito a dez minutos em uma zona de formação severa de gelo. As caixas-pretas revelam que comandante e copiloto demoraram a ativar o sistema de degelo, essencial para remover o gelo das asas, e chegaram até a executar incorretamente parte dos procedimentos previstos.
Durante o voo, conversas pessoais entre os pilotos também teriam desviado a atenção dos protocolos de segurança, atrasando ainda mais a resposta aos alertas de formação de gelo emitidos pelo próprio avião.
O Cenipa identificou que, na véspera da tragédia, o mesmo avião apresentou defeitos no sistema de degelo. No entanto, essas falhas não foram formalmente registradas pelas tripulações, o que impediu a realização de manutenção antes da missão seguinte. Segundo o relatório, havia uma prática recorrente de comunicação informal dos defeitos, minando os controles internos da empresa.
O documento descreve uma “cultura de normalização de desvios” na Voepass, em que problemas técnicos não eram notificados para evitar tirar aeronaves de operação. Até componentes com defeito eram reutilizados em outras máquinas, e auxiliares de manutenção atuavam sem a supervisão de mecânicos habilitados, reduzindo as barreiras de segurança.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também foi criticada: auditorias anteriores já haviam apontado falhas na manutenção, na rastreabilidade de peças e no controle operacional, mas nenhuma ação foi aplicada para restringir ou suspender as operações da Voepass. Em nota, a Anac afirmou que vai analisar todas as recomendações do Cenipa em até 120 dias.
Enquanto o Cenipa encerra a investigação técnica, a Polícia Federal mantém um inquérito para avaliar possíveis responsabilidades criminais. O caso deve ser concluído nas próximas semanas e enviado ao Ministério Público Federal para análise de indiciamentos. A Voepass, por sua vez, declarou ter colaborado integralmente com a apuração, reafirmou que sua frota seguia padrões internacionais de aeronavegabilidade e disse que só vai se manifestar de forma mais detalhada após revisar o relatório.
